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Me esforcei para escrever. Há alguns anos atrás quando comecei planejava ser um livro. O tempo passou, e enquanto as coisas mudavam fiquei sem tempo e sem inspiração. Guardei os primeiros parágrafos.

Minha vida mudou, e a história também. A ela dei mais mais linhas e um ponto final com cara de reticências. A pretensão do livro está temporariamente adiada, sem datas. Nem todas as situações descritas são exatamente reais, mas em todos os significados há pouco (ou muito) de mim.

É um texto um pouco grande. Para os que não mergulharem em cada palavra provavelmente se tornará cansativo lá para o quarto, quinto parágrafo… Por isso peço que entre o quanto puder, se procure nas frases. Peço também aos que completarem que deixem um comentário com o que sentir vontade, ou simplesmente uma nota de que foi até o fim. É importante pra mim.

O português acertado é mérito de Tania Montandon, e todos os possíveis erros são meus.

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O desejo por escrever excedia a inspiração. Logo, todas as primeiras tentativas foram interrompidas com rosnados silenciosos e movimentos indecifráveis nos lábios. Como se quisesse exprimir emoções. Entretanto, desconhecia os códigos com que pudessem ser escritas. O olhar viajava em movimentos entre as limpas linhas à sua frente e o céu azul acinzentado além da janela à esquerda. Recomeçava diversas vezes, mas nem o branco das letras apagadas como incentivo à libertação parecia o ajudar.

Existia além do simples patético, descrição interior sublime das mais sinceras manifestações de amor, à espera de novas razões que fizessem abandonar desgostos ainda claros na memória. Ansiava a poder fazer sentir a singularidade das sensações e a glória do perfeito possível, até mesmo quando não retribuído ou humanamente desacreditado. Porém, tropeçava em seu próprio corpo ao chão e retornava do transe tão mais confuso quanto segundos antes do devaneio.

Do que serviria utopia de felicidade, ainda que por tempo indefinível quase alcançasse o céu, se todos os posteriores momentos o trouxeram de volta a realidade pouco atraente? Dividia-se então entre não mais sonhar ou viver o resto dos dias em sonho acordado, alimentando-os de tal maneira que se desgarrasse de quaisquer influências das tentativas em trazê-lo de volta a realidade.

Depois de algum tempo, virou-se para a estante onde ficavam alguns livros, passando os dedos sobre eles, parecendo procurar por algum. Todavia sequer lia os títulos, buscava saída para seus pensamentos ou algo ao acaso que inspirasse. Não era a primeira vez que se encontrava preso à imaginação, sentindo-se parte dela, ou ainda a mesma coisa sem possibilidade de separação. Procurava, pois, as palavras certas que representassem as melhores expressões. Certificava-se disso em releituras nos momentos e lugares diferentes. Queria ser entendido mesmo além das experiências e traumas individuais. Mais difícil ainda do que simplesmente escrever…

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Levantou-se por impulso e, rapidamente, já estava em frente a sua casa, a pensar sobre qual seria o destino. Os dois lados da rua pareciam-se tanto! Pôs-se então a caminhar e, após dar alguns passos, virou-se na direção oposta ao vento e continuou. Dúvida constante! Insistia em opor-se ao previsível. Não era comum sair assim. Entanto, naquele momento, significava fugir dos pensamentos que o prendia. De alguma forma, a chance de respostas era pouco clara em sua mente. A verdade é que não sabia muito bem onde encontrá-las… Fazia tempo prometeu a si tentar algo novo, diferente daquele quarto pequeno de apenas uma janela. À revelia, esbarrava na rotina e comodismo viciantes.

Interrompeu o passo a algumas quadras depois em uma pequena e velha praça, de expressivas texturas desenhadas pelo tempo no concreto. Chamava sua atenção belíssima paisagem de um lago grande e calmo, a proteção das árvores ao redor, parecendo estar ali muito antes da construção da praça e, ainda assim, com sua beleza preservada. Naquela tarde não havia sol nem raios solares a se esconder no horizonte marcando o final de um dia. Somente um céu nublado em dégradés acinzentados que escureciam discretamente. O vento, mais forte com a chegada da noite, bagunçava seu cabelo e secava seus olhos. Ao perceber que há tempos não observara merecidamente aquela cena, impedido pela pressa ou mesmo alienação ou preocupação, sentiu leve nostalgia. Caminhou até o banco mais próximo do lago, também o mais distante do movimento da rua, com carros e pessoas a pé, cada um com seus destinos. Poucos refletiam sobre onde realmente queriam chegar. E quem exteriorizasse tal dúvida provavelmente seria classificado como alucinado, irracional. Por vezes essa era a pergunta que se fazia durante as tentativas de dormir nas madrugadas silenciosas. Acontecia de pegar no sono durante tais questionamentos e, quando acordava, era como se não tivesse ainda as respostas nem mais precisasse delas.

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Três semanas aparentemente inúteis. Um livro para escrever e o máximo que conseguia eram frases de duas ou três linhas, muitas delas riscadas ou apagadas, e nada que fizesse morada a seu íntimo, ou seja, que fosse merecido dizer. A tragédia aparentava tão mais inspiradora do que isso que chamam de maturidade e, em momentos de profundos pensamentos, chegava até a querer outra vez deixar-se levar por projeções ilusórias de sentimentos. Tudo pra sentir de novo a dor do desencanto. Essa tal estabilidade emocional quase sempre monótona demais, previsível demais. Necessitava sentir que estava vivo, pois reflexos no espelho não eram suficientes.

Um pouco além de sua própria condição, – e não justificando a confusão de sentimentos, nem mesmo incentivando a superficialidade das emoções e relações –, parece ser intrínseco ao homem a frustração e o sofrimento, e muita influência possui sobre os grandes feitos da humanidade, principalmente ao que diz respeito à arte de expressar a vida e o que não podemos explicar de outra maneira.

Nada que mereça grande atenção foi consequência do conformismo.

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Cada hora parecia ser um dia. Ainda assim, já era início da tarde e enquanto o tempo passava se assemelhava mais com os dias anteriores. A certeza de que nada iria acontecer tornava a espera pela noite única opção. Todos precisam esperar por alguém ou alguma coisa… Ocupava-se em lembranças, sempre embaralhadas por pensamentos novos de um passado cicatrizado, acostumado a ser relembrado. Livros, sua melhor companhia e até mesmo deles perdia o interesse naqueles momentos quando o tédio sobrepunha a razão. Como se nada do que houvesse – fossem atividades, músicas, diálogos, paisagens, textos, situações, imagens… – era suficiente para despertar dessa letargia. Um vazio, escuridão de respostas que não podia ver. Caminhava e caía. Às vezes a encontrar sentidos se esbarrava neles, mas nunca sabia como achá-los, qual direção ir. Muito pouco de intuição e todo o resto de interferência sobrenatural. Há sido assim tantas vezes quando isso ocorria.

Felizmente, ainda via emoção no crepúsculo, minutos antes de anoitecer, com os últimos raios de sol a se despedir em perfeita harmonia de cores e movimento. Em nenhuma outra ocasião o som é tão dispensável… Um silêncio quase obrigatório, qualquer adjetivo é insuficiente para descrever o resplendor do começo e do fim de cada dia. Mas o céu, insistentemente nublado, não mudava há algum tempo. Por dentro isso já durava anos…

Torturava sua memória à procura dos espaços onde ainda havia vazios em sua mente e se assegurava de escrever tudo que conseguia para que não se perdesse jamais na confusão dos pensamentos. Às vezes ficam histórias incompletas, sem início, sem final, ou ainda sem os dois. Somente frases soltas, inacabadas. Algumas delas só faziam sentido pra si e para ninguém mais que as lesse.

Fazia de conta que escrever o libertaria ou o aprisionaria, a depender de como se enxergue o amor. Sim, esse sentimento quase sempre desfeito em cacos, encoberto por projeções das quais julgamos importante. Por mais que entenda e aceite, sempre haverá muito mais a ser dito do que compreendia até mesmo no silêncio onde a solidão se impunha. São nas vozes caladas que há abundância de palavras, as mais sinceras delas, pois proporcionam um entendimento desgarrado de limitações.

Tornou-se ausência e saudade do que sonhara ser. Todo o afastamento do mundo real por discordar do que, de fato, é imposto como consumação da existência. Nada além que rejeição justificada por noções de capacidade e poder de enganar, só o que se pode esperar. Faziam-no sentir em devaneios sob uma névoa de romance. Não importa, não há sentido. Há mais o que se preocupar, sempre há, sempre haverá.

Ensaiava a distração da lamentação e, como antídoto da dor, prosseguia com o pensamento de que vai ser. Por mais que acreditasse, não havia garantias a oferecer para que seu coração, quase a desistir, recuperasse suficiente força para bater mais forte. Era o mínimo que o pensar fazia e isso, seu segredo enquanto fingia novo fôlego. Há sempre aquela ideia de estar bem, cobrança por superação e o outrora que se apague. Dificilmente acontece assim. Tornam-se corpos que deixam rastros de sangue por onde passam, sob uma auréola imaginária de superação. Ou estamos cegos ou todos nos tornamos loucos.

No início foi doloroso admitir a dura verdade.  As mudanças ocorridas em seus sentimentos eram irrelevantes na proporção com que elas pareciam presentes. Numa espécie de autodefesa, não ignorou o que sentia, mas inconscientemente guardou para se fazer mais forte na medida em que se recuperasse a coragem. Já conseguia prestar atenção ao passado e sorrir. Isso era suficiente.

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O tempo passara e levou a sujeira dos entendimentos comprometidos por equívocos e traumas abraçados como se sentisse a falta daquelas linhas mal escritas. Constatou que ser, o amor em seu interior, sentimento dádiva. As quedas do caminho, escolhas imprecisas. Naquele dia a luz que aparentemente desistira de esperar se mostrou no céu insaturado e encontrou espaço dentre as ralas nuvens até seu coração. Necessária abstração só possível após complexas emoções e prováveis confusões que possui seu aparente último fim em opiniões a denotar grande frustração.

Ele é seu… O amor. Cicatrizes permanecem até a pele se renovar. Deveras é a renovação do sentimento o antídoto preciso, subscrição de recordações que poderiam ter se espalhado em pedaços minutos após, entanto permaneceram até que houvesse substitutas. Pois é grande a condenação para um coração isento de qualquer alteração, mesmo as menos desejadas.

Às vezes o ideal baseia-se em cicatrizes e afagos de consolo. Como partes imprescindíveis de momentos autojustificados. Entender a origem e a razão de todos aqueles estreitos caminhos parecia ter perdido sentido. Concentrava-se somente no que podia tocar e sentir; duvidava, mas, diferente do que pensou que sabia, o amor assume variadas formas, e tudo depende de nossas permissões.
Desprendeu-se então do que guardava sem sentimento definido, deixado lá. Permitiu-se preencher e subscrever para além do que podia crer. Às vezes até não cria, mas impossível outra reação não fosse viver como se não houvesse passado e espectadores. A novidade até assustava, momentos que se completam em si mesmos, dispensando o antes e o depois.

“Ela é linda”, seus olhos quase falam enquanto explorava pela primeira vez cada centímetro daquele singelo rosto e, rapidamente, desviava para não ser notado. Sorria com certa descrença. Classificar naqueles momentos o que era real ou sonho também não era o mais importante. Demasiado esforço precisaria para manter-se imune a tantos encantamentos, escolheu não fugir. Entregou-se como quem não possui limites e saboreou a sublime reciprocidade. Seus pés machucados levitavam enquanto corria para a luz. Duas almas em cacos fizeram-se uma e, a cada espaço de tempo quando se envolviam, confirmavam o pacto que prometeram e que talvez nem tenham notado naquele instante.

O calor do toque imoderado das mãos sobre a pele e toda aquela abnegação unilateral eram as provas que poderia esperar. Apaixonou-se pelos beijos em meio a palavras doces. Fixava o olhar no movimento dos lábios enquanto ela falava e observava, com satisfação, aquelas curvas em sua direção. Compreensão concedida para anos de dor. Faziam planos como quem jamais conhecera o sofrimento e riam como se não tivessem passado.

Entregou então o seu tímido amor que ansiava por cura. Sobretudo a cura dos conceitos incertos e dos erros a ficar para trás. Encontrou nos abraços carregados de carinho a singela definição que procurara por tantos anos. Confessava versos transbordando de amor sob um olhar atento e sorriso esticado. Toda a natural beleza que palavras não alcançam. Não podia mais dormir sem ouvir aquela voz doce de quem implorava por carinho, e os dias tornaram-se caminhos de espera para um destino edificado em nuances de romantismo. Construíram alicerces para a eternidade e, em todos os dias, apaixonavam-se novamente.

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