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O livro que você me deu perdeu-se vezes em minha mesa no trabalho, vezes naquele móvel improvisado ao lado da cama no qual há outros livros que juntei desde que tua aptidão para a leitura reacendeu a minha há alguns anos abandonada. Mas não foi intencional, “é só um período com muitas obrigações”, eu assim dizia e tu compreensiva, aceitava. Não quis largá-lo a ermo mesmo diante do susto motivado pela complexidade das ideias pelas quais meu limitado esforço em entender se mostrou insuficiente. O que mais constatei sobre Kafka foi a indisposição para a simpatia, ainda que não desprezasse a educação das formalidades de antigamente.

Pensei em levá-lo comigo pela expectativa de ser longa a viagem, mas de instantâneo me corrigi ao recordar as características da viagem: à noite, e pouca iluminação. Além de que, ao me unir a tua presença nesses curtos encontros, pouquíssimas coisas deveria interferir para que desfrutássemos mais um do outro.

Algumas horas após, já acometido de simultâneas expectativas e apreensões, verificar desconhecer as ruas e casas à volta multiplicava a agonia. Então pensava. Talvez nunca tenha dito que aprecio tua paciência desmedida, tua espera classificada obrigatória.

Dormi para encurtar a distância. Acordei tão próximo que já podia prever te acordar com afagos, mas ao chegar e te encontrar singela pela calmaria do vigente dia que há pouco pôs-se a brotar, foi suficiente a carícia com leves beijos e segundos te olhando através da modesta claridade que vinha da janela.

Saudades e encontros tem sido tema da maioria destes poucos textos. Deveras nunca fui bem em falar do que não me consome, e nesses quase dois anos nossos dias podem ser compreensivelmente definidos como esperas. Poderia até justificar a constância na escassez de novidades onde tudo que poderia ser dito já foi, mas por enquanto unicamente falarei do que vivo.

Só nós sabemos dos efeitos colaterais. Mas mesmo tua habilidade acidental em estragar tudo me remete a intensidades de fundura das quais não se vê por aí. Não poderia então abdicar tamanha doação que desnorteia.  Deitando às 4:30 da manhã não consegui passar das 7 pelo entusiasmo em te rever no quarto ao lado. O aconchego do teu sorriso enquanto me abraça me transporta a planetas só nossos. Teu amor me apaixonou, mas conforme os meses passaram perdi o atributo de vítima. “Entre muitas outras coisas, tu eras para mim uma janela através da qual podia ver as ruas. Sozinho não o podia fazer.” (Franz Kafka).

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