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Confesso, amor, que fugir dos caminhos que possa alcançar a constatação dos meus limites tem sido recorrente conforme me sinto enfraquecido e perdido. Eu não faço ideia de quanto posso aguentar, apenas aguento. Sendo eu quem tu julga por basear palavras em lógica, isso aparenta ser abundante estupidez. E é. Mas essas ilusões de vigor reinvento todos os dias para não dar tudo a perder.

Já li por aí que o medo faz o homem se mover, e que grandes realizações e atos heróicos não derivam da coragem, mas da probabilidade iminente de fracasso ou da morte, muitas vezes residente na inércia. Descobri que carrego dois medos, e que de alguma forma podem ser definidos um. Isso acontece porque se algum deles se torna real, o outro está condenado ao mesmo fim. Um é o temor de me sentir sozinho e sem expectativas ante a ausência irremediável de tua companhia. E o outro é te perceber perdida em si mesma de tal forma que não se reconheça nem encontre incentivo para a existência. Em minha visão poética – e supostamente equivocada, mas que ainda me apego –, chamaria de amor este impulso que multiplica minha capacidade de persistência além do que eu mesmo suporto. Mas e se for medo?

Me sinto um pouco quebrado, amor. E tenho muito medo de trocar estes cacos por algumas certezas frias. Mas eu não vou ceder, porque bastam memórias pouco definidas do teu sorriso e me sinto mais disposto neste objetivo do qual não posso renunciar. Vai ver nem somos tão diferentes assim no que sentimos, e o diferencial esteja apenas nas escalas. Quero dizer que as vezes o mínimo também me dói, que meus monstros de dentro escapam vez ou outra e que por isso estou sujeito aos mesmos erros. Mas aprendi que qualquer conceituação profunda sobre a tristeza e sua propensão para a beleza simplesmente perde o sentido quando estou com você.

Tu possivelmente consideraria peso demais se eu te pedisse para não me deixar te deixar. Mas é que enquanto o amor continua sendo um enigma do qual estamos tentando, tua retribuição ou iniciativas naturais de afeto são combustíveis paralelos ao medo, que maximiza o amor preenchendo minha mente de sonhos de cumplicidade que as outras pessoas sequer compreendem.

Pode soar um tanto arrogante, amor, a idealização de que em parte eu me faça forte por tu quando não consegue. Mas acho que não convém ocupar outras linhas ao tentar explicar, se boa parte destas palavras são repetidas. E ao dizer assim, se não for tu que me entenderá, quem mais? Gosto de pensar que tu faria o mesmo por mim, ou melhor. E não escrevo desta forma como persuasão à tua postura, se porventura eu caísse, mas por acreditar em tua vocação para a bondade além de nossa natureza errada; essa bondade tantas vezes surrada e ofendida por outros e por tu mesma no auge dos desapontamentos. Gosto de ponderar que todas essas provas tem a exclusiva finalidade de fortificar o que nos une, apesar de que não conseguimos ainda extrair o melhor dos tropeços.

Me desculpa, amor, se preferia que isso fosse uma conversa e não um texto feito só. Tenho tantas coisas para te dizer que não consigo falar, pois me priva o raciocínio a possibilidade de tua resistência a qualquer frase mal arrumada e por isso um desencontro. Tu dormiu e eu estava pensando em nós.

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